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terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Significado de um Beijo

O significado de um Beijo

Atravessando a rua ele entrou no restaurante; estava faminto... Diante da repleta variedade de coisas escolheu as mais gostosas. Com seu prato em punho e a fome no auge escolheu uma mesa no canto do salão. No entanto, outra mesa lhe chamou repentinamente a atenção. Solitário, um jovem magro e alto fazia a sua refeição. O primeiro desviou de seu caminho e foi direto para aquela mesa. “Posso me sentar aqui?” disse o recém chegado, que já estava com o prato na mesa, sentando-se na frente do outro jovem rapaz, que mal teve tempo de responder, pois o outro já havia sentado. Um sorriso sem graça se fez visível na face do segundo rapaz. O primeiro, sem pudor nenhum começou a conversar com o segundo como se fossem velhos amigos... Bem, quase isso. Mais que isso. Não mais isto. Ambos eram ex-namorados e aquela era a primeira vez que o destino estava pondo os dois frente a frente após o rompimento. Conversaram, riram, tiraram sarro um do outro e nem um tocou no término, ou definitivamente iriam brigar... Viveram bons momentos juntos e mesmo separados há um tempo ainda conseguiam se sentir a vontade um com o outro. O primeiro continuou conversando com o segundo, que já tinha terminado a sua refeição e dava indícios de que a qualquer momento iria dar uma desculpas para sair daquela embaraçosa situação. Era estranho. O jovem mais ousado terminou de comer e fez questão de acompanhar o ex-namorado até a saída, pois já sabia que ele estava indo para casa... Fez o segundo percorrer o caminho mais longo e conversa vai, conversa vem, vem o desafio. “E você dúvida que eu sou capaz de te agarrar aqui mesmo e te dar um beijo?” disse o mais desinibido para o ex-namorado, mais tímido. “Você não é nem doido...” Os dois riram e continuaram a caminhar e conversar. Em determinado momento, quando somente os dois estavam sozinhos em certa parte do caminho, quase chegando ao destino final, o primeiro tomou uma atitude. O segundo resistiu, disse que não, mas não resistiu a tentação. Os rostos tão próximos, os corpos tão quentes, os lábios tão sedentos por um beijo... O primeiro agarrou o segundo, abraçando-o com vigor em seus braços, segurando seus próprios punhos nas costas do ex-namorado. O segundo, ficou sem reação, estava preso num abraço apertado e gostoso. Encostou-o na parede e de mansinho o primeiro aproximou o seu rosto no do segundo. Sentiram a respiração um do outro, fecharam os olhos e logo... Veio beijo. Um clima de carinho e paixão se fez entre eles... E não parou ali. Um, dois, três... Sete momentos de beijo no final das contas. No final, ambos voltaram para suas respectivas casas felizes... Cada um deles com seu significado particular daquele beijo...



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Cristian Chocolath

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Conto-Sonho: O Vizinho

O Vizinho

A casa estava cheia quando acordei naquele domingo pela manhã. Tios, tias, primos e primas, além da minha avozinha, viriam nos visitar para um almoço em família. Muitos chegaram cedo e minhas primas foram logo para o meu quarto me acordar, enquanto minhas tias conversavam e riam alto com a minha mãe, lá na cozinha. Apesar da alegria de todos naquela manhã de domingo eu estava um tanto melancólico. Na casa ao lado algo mudava... A propósito, meu nome é Lucas.

Minhas primas me acordaram; elas estavam animadas pedindo para que eu levantasse para irmos jogar alguma coisa no vídeo game ou tomar banho de piscina. Eu não queria levantar, queria dormir e esquecer que aquele dia havia chegado. No entanto, levantei-me, sorrindo meio que sem vontade para Amanda, Milla e Vanessa, minhas primas. Nós tínhamos a mesma idade praticamente, eu sendo o mais velho, com quase vinte anos e elas com quinze, dezesseis e dezessete, respectivamente. Crescemos juntos e muito unidos. Havia também alguns primos, que eram alguns anos mais velhos que eu. Fiquei alguns minutos no quarto com as meninas, conversando. Não queria sair de lá. Logo, minha mãe gritou para eu levantar e ir pedir a benção para minha avó, que já estava a minha espera. Disse para as meninas avisarem a vó que eu iria tomar banho e que já estava indo... Peguei a toalha e fui tomar um banho rápido. Durante o banho lembrei-me daquele sorriso, daquele olhar. Fiquei triste, pois nunca mais os veria. Bateram na porta do banheiro. Terminei o banho e saí, retornando ao meu quarto para trocar-me. Chegando lá levei um susto. Um corpo moreno, delgado e nu estava em meu quarto.

- Eai primão, tudo bem?! – perguntou Roberto, com um sorriso no rosto ao me ver entrar no quarto, vestindo uma sunga preta.

Recuperei do susto inicial em ver meu primo nu de costas para mim e o cumprimentei meio sem graça. Ele me convidou pra dar um mergulho na piscina e eu disse que mais tarde eu iria me juntar a ele na piscina. Mentira. Tinha outros planos para aquele domingo. Vesti um short e uma camisa simples, azul e fui pra sala... Comecei o momento de bênçãos, juntando as mãos e direcionando primeiro a minha avó, que estava na sala. Dei um abraço na simpática velhinha que estava no sofá, junto das minhas primas que já estavam na sala preparando o vídeo game. Cumprimentei duas tias que estavam na sala conversando com minha avó e pedi a benção. Depois fui na cozinha e dei um beijo na minha mãe e em mais três tias, que já estavam com as mãos na massa, ajudando a preparar o almoço. Conversei com elas um pouco. O papo de sempre: como vão as coisas, como está a faculdade, e, a mais constrangedora delas, como iam as namoradas. Sempre me esquivava com um sorriso desta última pergunta. Sai da cozinha e fui pra varanda de trás, pedi a benção para o meu pai e para os meus tios que ali estavam, acendendo a churrasqueira. Na piscina, cumprimentei minhas duas primas mais velhas, Denise e Liliane, que estavam preparando-se para juntar-se a Roberto e Carlos, meus primos mais velhos.

Sem delongar muito na beira da piscina entrei de volta em casa, indo para o meu quarto. Não estava muito feliz pra partilhar momentos em família. Estava deitado na minha cama, ouvindo música, quando, acho que cochilei e só despertei quando o sinal de alerta de mensagem fez vibrar o meu celular que estava em meu peito.

“Já tô aqui cara. Se quiser dá um pulo aqui em casa depois. Lene tá aqui, inconsolável, rsrsrs”

Li a mensagem no visor do celular e meu rosto iluminou-se de alegria. Levantei rapidamente e passando rapidamente pela cozinha avisei a mãe que estava indo na casa do seu João Alberto, me despedir. Sai de casa pelo portão da frente e me encaminhei para a casa ao lado. Seu João Alberto morava na casa ao lado da minha, desde meus treze anos de idade, quando mudou-se para o bairro com a sua esposa e seu filho. Dona Inês tinha falecido há três anos, deixando seu marido e seu filho sozinhos. A propósito, o nome do filho deles é Júlio. Éramos melhores, ao menos costumávamos ser, antes dele começar a namorar uma garota chamada Nátalia. Hoje eles estavam separados...

Entrei pelo portão aberto e segui entrando pelo portal de entrada da sala que também estava aberto. A sala vazia, sem móveis, sem vida. Era triste entrar ali e ver a casa deserta.

- Bom dia Lucão! – cumprimentou seu João, quando veio do fundo da casa para ver quem havia entrado. – Chega aqui no fundo... Júlio e Marlene estão lá na cozinha, arrumando as últimas coisas.

Sorri para o velho senhor, que desde sempre me tratava com muita gentileza, como se fosse seu próprio filho. Tinha um grande respeito por ele e por dona Inês, que era uma ótima contadora de história, sempre que eu chegava no final da tarde após a escola, com o Júlio. Entrei na cozinha e lá estava tia Lene, como a gente chamava carinhosamente Marlene, que era uma senhorinha com idade da minha avó, que era a secretária do lar de muito tempo da família do Júlio. Foi ela quem segurou as pontas quando dona Inês ficou doente de câncer e partiu...

Júlio ao me ver abriu um sorriso lindo e seus olhos cativantes brilharam ao me ver. Júlio estava se mudando com o pai para outra cidade e naquele domingo foram na casa para buscar as últimas coisas da mudança e para desplantar todo o jardim que dona Inês maravilhosamente tinha feito em volta da casa e que havia sido muito bem cuidado por tia Lene nos últimos anos. Eu havia prometido que ajudaria eles com o jardim. Júlio e eu fomos para fora da casa, levando pás e um caixote cheio de vasos, para plantar algumas plantas. Conversamos, rimos, nos divertimos... Nem parecia que aquilo era uma despedida. Já havíamos desplantados muitas das plantas e flores do jardim de dona Inês. Seu João Alberto fazia questão de levar as plantas de sua mulher, pois esta era a lembrança mais valiosa que ele tinha dela: o cuidado que ela tinha para com as plantas, flores, animais e pessoas. Não queria se desfazer de nada que lembrasse dona Inês.



Júlio se emocionou quando começamos a cavar o pé de uma roseira azul, planta muito especial, por ter sido uma das últimas a ser plantada pela sua mãe, antes dela ficar no estágio mais avançado da doença. Lembro-me, que há quase quatro anos atrás, Júlio e eu plantamos aquela roseira, sob as instruções de dona Inês.
Rimos relembrando... Choramos juntos de saudades...


- Não fica assim cara... Pensa que sua mãe está bem agora, que ela não está mais sofrendo... – disse, tentando consolar meu amigo.

Os últimos meses de vida da mãe dele foram dolorosos e bem sofridos. Lágrimas caíram da face daquele jovem rapaz, que era alto, pele clara, cabelos lisos, escorrendo pela testa. Ele era lindo. Terminamos de plantar uma muda de cada espécie do jardim. Estávamos sujos e já era quase uma da tarde. Minha mãe apareceu no portão, me chamando. Seu João e Marlene apareceram na frente da casa, enquanto eu e Júlio íamos lá para frente. Minha mãe convidou-os para se juntarem a minha família durante o almoço e seu João Alberto e Marlene aceitaram, uma vez que na casa já não havia mais nada. Minha mãe mandou que nos limpássemos na pia do corredor lateral, pois estávamos completamente sujos de terra.

Fomos nos lavar. Júlio estava com os braços sujos de terra, sua camisa estava toda suja e até seus rosto e cabelo estavam sujos de poeira e terra. Eu estava bem sujo também, mas nada comparado a ele. Começamos a lavar as mãos, lado a lado. Tirei o grosso da terra de minhas mãos e pedi para ele esperar, que iria pegar um sabonete para nos limparmos melhor. Voltei em poucos instantes e entreguei o sabonete na mão do Júlio... Intencionalmente, toquei na mão dele. Era a minha última chance de demostrar o que realmente sentia por ele.

- Está sujo aqui, ó... No seu braço... – disse, sorrindo, ensaboando a lateral do braço esquerdo dele. Júlio sorriu. – Eu vou sentir sua falta... – disse, agora com voz triste, desfazendo o sorriso.

- Eu também... – disse Júlio, olhando no fundo dos meus olhos.

Estávamos lado a lado. Por um instante não me refreei ao desejo que há muito tempo vinha tolhendo dentro de meu peito. Meu rosto se aproximou lentamente do rosto de Júlio e antes que eu fechasse meus olhos percebi que ele estava fazendo o mesmo. Nossos lábios se encontraram e selaram um beijo intenso e cheio de sentimentos. Ele soltou o sabonete na pia, com a torneira jorrando água e envolveu os braços em meu pescoço, ao passo que eu abracei-o pela cintura. Nossas línguas valsaram juntas, um na boca do outro e lágrimas caiam dos meus olhos ao perceber que aquele tinha sido meu primeiro e último beijo com Júlio. Paramos de nos beijar. Júlio enxugou minhas lágrimas com a mão esquerda que já estava limpa, sem deixar de me abraçar, com seu corpo colado ao meu.

- Lucas! – gritou Denise, surgindo de biquíni e toda molhada no corredor. – Ops... – disse ela, sem graça, ao ver Júlio e eu abraçados, com os rostos bem próximos. Neste mesmo instante, Júlio e eu nos afastamos e ele ficou de costas para ela, lavando as mãos, enquanto eu continuava encarando minha prima, sem graça. – O almoço tá pronto, vocês estavam demorando e a tia pediu para eu vir te chamar... – disse ela, agora com um sorriso no rosto.

Era o sinal de que tudo estava bem para ela e que este seria mais um de nossos segredos de primos.



Depois daquele dia Lucas e Júlio nunca mais se viram pessoalmente outra vez, mas cada um guardou pra sempre a memória daquele domingo e daquele beijo...



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Cristian Chocolath

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Noite Escura


A noite estava escura. O céu parcialmente nublado. Havia chovido e o cheiro de terra molhada ainda era possível de ser sentido. Caminhando apressadamente pelas ruas do bairro deserto estava o jovem garoto. Atrasado, apreensivo, suado... Atravessava o caminho asfaltado, iluminado pelas luzes dos postes públicos rumo ao trabalho. Mais uma madrugada, mais um dia... Um receio inquietante perturbava a mente do garoto. Corria o risco de ser assaltado ali, naquela noite escura, no entanto, o que o assombrava era algo irreal. “E se um lobisomem se materializar do nada do meio do mato correndo em minha direção?!” Um assombro, uma tensão. Fora a alma dele próprio a única coisa viva naquelas ruas desertas eram os motoristas dos carros que passavam por ele iluminando os trechos de escuridão. Musica do celular, começou a se animar. Nada poderia acontecer àquele menino-homem, pois a Lua, sua madrinha, estava cheia, olhando, guiando e protegendo os caminhos dele. Nada aconteceria com ele, pois mesmo só, sentia que estava sendo vigiado e guardado. Não soube ao certo se por Deus, por um anjo ou por um espírito iluminado de amor e de paz. Sabia apenas que ao seu destino chegaria são e salvo. Fachada do trabalho avistada, nada havia acontecido. Dito e feito. Aquele garoto estava sendo protegido... A noite escura ele atravessou, mais um dia de trabalho ele alcançou e na manhã seguinte, calorosa e acolhedora em sua brisa matinal, rumou ele de volta para casa para mais um dia proveitoso que lhe era proporcionado afinal...



sábado, 14 de abril de 2012

Conto-Sonho: Falta de Humanidade

Conto-Sonho:
Falta de Humanidade


Minha mãe e eu chegamos ao terminal de ônibus da cidade. Muitas pessoas estavam lá. Naquele dia estava tudo muito esquisito. 


Parecia um dia da terra de ninguém. 


Caos. 


Lá encontrei vários colegas da faculdade. 

Minhas amigas, dois amigos que eram namorados e por estranha coincidência uma colega de trabalho que eu nem sabia que conhecia meus colegas. 

Fiquei chocado com o que aconteceu a seguir: terminal lotado; empurra-empurra... 

Um burburinho tomou conta da multidão após um ônibus chegar ao terminal depois de quase uma hora de espera. 

Um grito de agonia e logo percebi que um jovem rapaz agonizava debaixo do ônibus, com um dos pés presos na roda dianteira do veículo. 

O mais chocante e cruel de tudo daquele atropelamento ainda estava por vir. 

O motorista abriu a porta e a multidão começou a entrar no ônibus. 

O garoto chorava urrando de dor. 


Algumas pessoas abaixadas em volta do ônibus observavam a cena. 

Algumas imploravam para que o motorista fechasse as portas, para que as pessoas descessem do ônibus. 

Não adiantou. 

O jovem parou de gritar. 

Eu, abaixado assistia aquela cena grotesca; aquela falta de humanidade sem medida. 

Um aperto danado no coração diante da minha incapacidade de fazer alguma coisa por aquele pobre garoto. 

Ônibus cheio.

O motorista deu partida e saiu. 

A roda traseira passou mais uma vez passou por cima do pé totalmente esmagado do garoto.

Haviam se passado dez preciosos minutos. 

A multidão restante desceu da plataforma e se colocou em volta do corpo do menino. 

Eu, ali parado, abaixado, vi o cadáver do menino, uns treze ou quatorze anos, empapado com seu próprio sangue, pé direito esmagado, cabeça virada na minha direção, olhos vidrados e boca aberta. 



Aquela cena aterradora me fez chorar compulsivamente, pensando mil coisas, com raiva e angústia, pesar e dor... 

Perguntava a Deus: 

“por que tanta falta de humanidade e crueldade com esse pequeno ser humano?”





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sexta-feira, 2 de março de 2012

O Anjo Ceifador - Parte III

O Anjo Ceifador

Parte III


rês e meia da tarde. O garoto estava dormindo entre os livros e cadernos, num sono calmo e profundo. Acordou assustado olhando para o visor do celular olhando as horas. Seu corpo estava pesado e ele tinha sonhado algo que não conseguia recordar. Ignorou o corpo e o sonho não lembrado. Entrou no banheiro, tomou seu banho e se arrumou. Ele estava no horário, mas não queria se atrasar. Não podia se atrasar... Colocou as coisas na mochila e foi até o quarto dos seus pais. Somente a mãe estava em casa. Ela estava dormindo e o jovem não quis acordá-la. Antes de sair olhou as chaves do carro da sua mãe. Uma idéia absurda lhe passou pela cabeça. Saiu de casa a pé em direção ao ponto de ônibus. Era 16h15. Começou a ficar desesperado. O ônibus não tinha passado ainda e em quarenta e cinco minutos ele deveria estar dentro de uma sala na sua faculdade fazendo a prova. O coletivo chegou e logo ele já estava no outro ônibus indo para a sua universidade. Já eram 16h40. Sentia seu corpo estranho. O trânsito estava lento, tinha acontecido alguma coisa. Um acidente interditou metade da pista, causando a lentidão na avenida. As 16h55 ele desceu do ônibus. Daria tudo certo... Se corresse um pouco chegaria em cima do horário. Estava de ultimato. Se ele se atrasasse perderia a prova. E isto estava fora de cogitação. Faltava apenas atravessar as duas pistas, entrar no bloco e correr até a sala. Sinal amarelo para os carros. O garoto começou a correr. Pisou na faixa... Sentiu um frio tomar seu corpo, um vento forte passar velozmente pelos seus ombros. Viu de relance um vulto preto passando por cima dele e imediatamente se lembrou: O Ceifador... A estranha Criatura caiu abaixada do outro lado da rua. Tudo se passou em um único segundo. O garoto tinha acabado de parar de correr ao ver aquele Ser. Uma buzina forte. Uma freada brusca. Um carro que estava furando o sinal atingiu em cheio o corpo do garoto, que como um boneco de pano foi jogado a vários metros de distância do local onde foi atingido. Seu dorso ao atingir o capo do carro, quebrou-lhe as costelas de um dos lados; sua cabeça chocou-se contra o pára-brisa fazendo-lhe um profundo corte na testa; seu corpo foi projetado para frente, batendo violentamente no asfalto, rolando várias vezes, quebrando o fêmur, os braços e uma das pernas. O pescoço pendia molemente num ângulo engraçado. Os olhos fixos para cima. Havia uma luz... E contra ela um anjo... O Anjo da Morte, sem a capa negra, de asas bem abertas, chorando...  






Naquele dia mais um acidente interditou aquela avenida, próximo daquela universidade...



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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Anjo Ceifador - Parte II

O Anjo Ceifador

Parte II

garoto chegou em seu quarto, jogando seu material em cima da cama. Havia se esquecido do que tinha lhe acontecido há algumas horas atrás, pois somente aquela maldita prova tomava conta de sua cabeça. Seus pais já estavam demasiadamente preocupados e insatisfeitos com ele pelo fato dele ser homoafetivo. Iriam ficar ainda mais descontentes se o filho deles fracasse nos estudos e perdesse o ano na faculdade. Sem conseguir em pensar em mais nada começou a estudar. As horas se passaram e já eram 04h15 da madrugada. O sono começava a rondar, mas o menino não se dava por vencido. Mesmo embriagado pelo aroma doce da pele de Morpheu chamando-o para desposá-lo em uma noite de sono o garoto resistiu. O aroma do deus do bom sono deu lugar a uma nova e intrépida presença. Um vulto sagaz passou as suas costas quando se levantou e dirigiu até o guarda-roupas para pegar um moletom, pois sentia frio. Olhou para trás. Estava tudo normal... Ao menos ele pensava que estava.

Abriu o guarda-roupa do quarto e sentiu um presença maciça as suas costas. Seus pelos da nuca se eriçaram àquela presença. Não teve medo, apenas apreensão por um minuto. Lentamente se virou, com o moletom nas mãos. Viu a Criatura e lembrou-se exatamente daquela figura alta que naquela noite tentara contra sua vida. Desta vez ele estava de costas, com sua capa preta e sua foice reluzente em uma das mãos. Desta vez o jovem notou que aquele Ser era alado; longas asas de anjo pendiam em suas costas. Todavia, aquelas eram asas maltratadas e sujas. O garoto ficou olhando a Criatura por um instante. Ele parecia admirar as coisas em cima da cama, vários livros e apostilas e um caderno, com a caligrafia mal desenhada do garoto.

- Quem é você?

A voz do garoto cortou o silêncio no quarto. Não houve resposta. O Ser olhou para o jovem por cima dos ombros. Espantou-se por ver que o garoto não o temia. Todos o temiam quando o viam. Ficou intrigado, uma vez que para vê-lo não deveriam estar vivos. Aquele jovem era o grande problema daquela Criatura lúgubre. O encapuzado virou-se lentamente para sua vítima. Segurando a foice com as duas mãos tocou de leve a fronte do rapaz.

 Vi aquele ser atentar pela segunda vez naquela vida contra mim. Fechei meus olhos e esperei o que viria a seguir. Abri meus olhos um instante depois de sentir a foice em minha testa. Notei que não estava em meu quarto; o chão estava úmido e eu podia sentir a grama debaixo dos meus pés descalços. Olhei a minha volta e reconheci onde estava. Era um cemitério. Uma densa névoa tomava conta do local. Caminhei entre os túmulos a procura do Ser que inadvertidamente me trouxera para este local.

A luz do luar me guiou por entre as lápides até que pude avistar as grandes asas daquela estranha Criatura. Ele estava segurando a foice que repousava em seu peito. Sua face estava voltada para baixo e o capuz ocultava seu rosto.




- Quem é você? – perguntei pela segunda vez – Por que me trouxe aqui?! – quis saber eu, enfrentando o Ser.

Novamente o silêncio imperou entre nós. Ele parecia não querer falar. Eu tentei me aproxima daquele Ser alado, mas num piscar de olhos e ele estava mais na frente. Não estava mais gostando daquela brincadeira. O medo começava a tomar meu peito. Não medo de estar em um cemitério macabro no meio da madrugada, mas por não conseguir voltar para casa para estudar.

Corri entre os túmulos no meio da névoa densa. Avistei o que deduzi ser a capa negra, jazendo no chão. Olhei pros lados a procura do Ser que me trouxera até este local medonho. Uma silhueta estava desenhada em um túmulo. Fitei a tua cheia a minha frente e lá estava ele, encarrapitado em cima de uma enorme cruz de concreto. Suas asas reluziam a luz da lua e de alguma forma aquele Ser me encantava. Segurando a sua foice ele me olhava do alto, curioso. Ele me encarava como se não entendesse algo. Eu o encarava não entendendo por que estava ali. Por um segundo esqueci de perguntar... Simplesmente não conseguia parar de admirar aquela Criatura de traços masculinos.



Com impulso e um bater de asas ele pousou perto de mim. Meu corpo estava estático. Mesmo se tentasse não conseguiria me mover. O Ser foi diminuindo a distância entre nós; eu não o temia, mas meu corpo estava em choque. Senti frio. Ele estava há pouquíssimos centímetros do meu corpo e não conseguia mover nenhuma parte de mim, a não ser o meu coração, que batia acelerado. A figura alta, de cabelos mais pretos que o breu da noite, de pele mais alva que a face da lua naquela noite, se aproximou de mim. Eu estava totalmente a mercê de meu algoz e sentia-me plenamente. Ele diminui a distância entre nós... Pareceu-me que ele me beijaria. Eu queria isso. Todavia um sopro em minhas narinas ele deu. Senti uma excitação lancinante. Todas as células do meu corpo se agitaram...


O garoto acordou desesperado. Eram 16h30. Sua fatídica prova começaria em meia hora. Estava perdido. O medo e desespero tomaram conta dele. Saiu correndo do quarto. Sua mãe dormia profundamente sob efeito dos remédios. Não pensou duas vezes antes de fazer o que faria. Roubou o carro. Não tinha carteira de habilitação. Saiu dirigindo feito maluco pelas ruas e avenidas rumo a sua faculdade. Não podia perder aquela prova. Acelerou... 80... 90... 100... 120km/h. Cortava perigosamente por entre os carros. Sinal amarelo... Não daria tempo. Uma freada brusca. Um susto. Conseguiu parar em cima do carro a sua frente. Sinal verde. Continuou a acelerar. Já estava dentro da faculdade... Perdeu o controle da direção. O carro girou na avenida principal da universidade e bateu contra a parede da guarita de entrada. 16h55. Faltavam cinco minutos. Não pensou em nada. Faltava pouco para chegar lá. Ouviu um barulho estranho de ferro sendo rasgado. Não deu importância. Acelerou, manobrou e dirigiu até o local onde ia fazer a prova. Tentou frear, não conseguiu. O carro entrou abruptamente no corredor de entrada do bloco e parou. Um cheiro forte de gasolina. Pessoas assustadas com o barulho foram para a entrada ver o que acontecia. O motorista do carro estava ensanguentado... Uma faísca... Um explosão... Em poucos segundos o prédio inteiro foi consumido pelas chamas...”

A visão voltou. Lágrimas escorriam-lhe da face. Estava novamente em seu quarto. A Criatura desta vez segurava-lhe no colo. Pousou-o sutilmente na cama. Não conseguiria manter-se acordado por muito tempo; era impossível vencer aquela força que o induzia ao sono.

- Quem és tu...? – sussurrei baixinho, olhos semi-abertos.


“Tenho muitos nomes: Grim Reaper, Malach HaMavet, Thânatos, Yamaraja, Ange de La Mort, Filium Mors, Anjo do Sono Eterno, Filho do Fim... Mas para você meu doce rapaz, eu sou apenas o Anjo Ceifador!”

Ouvindo estas palavras, que eu sabia só estar ouvindo dentro da minha cabeça, adormeci.




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sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Anjo Ceifador - Parte I

O Anjo Ceifador


Parte I



ra por volta das dez da noite quando sai do prédio da universidade. Estava em prantos, desesperado pelo dia de amanhã. Era dia da fatídica prova de uma matéria que vinha me atormentando como um espírito obsessor nos últimos tempos. Minha vida parecia estar desabando como um castelo de cartas ao vento. Eu estava mal. Minha vida estava mal. Havia perdido uma pessoa a quem considerava afetuosamente extremadamente. Fui abandonado. Fui traído vilmente. Se não bastasse isso para completar meu infortúnio, minha vida acadêmica começou a declinar. Não conseguia estudar. Não conseguia superar... Aquilo tudo não saia da minha cabeça; não conseguia simplesmente esquecer e seguir em frente como em tantas outras vezes. Tudo que eu sentia continuava lá e já fazia algum tempo. Não era normal continuar naquele estado. Aquilo me matava lenta e sutilmente.


Naquele dia estava completamente desestruturado. Ou tirava nota máxima no exame do dia seguinte ou reprovaria e perderia o ano inteiro, agravando a minha moribunda situação. Ao cruzar os portões da universidade não sabia o que estava a minha espera. Não tinha ninguém por perto. De repente parei, encarando a avenida sem movimento. Um frio cortou meu corpo. Um nó gigantesco trancou minha garganta. Faltou o ar para respirar. Meu corpo inerte, sufocando. Era como se estivesse sendo enforcado por uma gelada e invisível mão. Sufoquei até não suportar. Debilmente, num último esforço senti minhas mãos tateando o ar na minha frente. Vi o que estava me sufocando por uma fração de segundos. O nó foi desfeito. Cai no chão...

Já se passava da meia noite quando acordei no hospital. Estava deitado e num impulso repentino sentei-me na cama. Não tardou e meus pais chegaram. Não tinham cara de contentes. Minha mãe em um misto de preocupação e raiva, ao que me pareceu. Meu pai firme e inflexível. Deram-me alta por minha insistência em ir para casa para poder estudar. Estava me sentindo muito bem. Tive uma parada cardiorrespiratória. Meu coração por um fato inexplicável parou de bombear sangue para o corpo e com isso senti a falta de ar; ao desmaiar recobrei espontaneamente a pulsação cardíaca e a respiração. Fui medicado e liberado. Os médicos estranharam um garoto de apenas 20 anos como eu sofrer de um fenômeno como este. Fosse o que fosse, não poderia negar o que meus olhos viram antes de ficar inconsciente: uma figura alta, com sua longuíssima e negra capa, com capuz que ocultava seu rosto, seu braço robusto segurava-me firme pelo pescoço, quando movimentei as mãos no ar por um instante toquei-lhe no braço que me acometia. Senti algo estranho. Vi um brilho perpassando o metal curvo e laminado que aquele Ser trazia na outra mão...







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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

L'Amant: Le Bain Fatal


L’Amant
Le Bain Fatal


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Ele trajava apenas um grosso e belíssimo roupão de banho. Adentrou o local após apertar o botão do player do aparelho de som ao passar pela sala de estar do elegante apartamento. Uma música delicada, instrumentada ao som de piano, que ecoava pelas paredes do suntuoso local, adentrando harmonicamente ao igualmente suntuoso toalete. O mármore dava um ar de imponência e de vigor ao espaço, que era tão grande e belo quanto qualquer outro cômodo daquele apartamento. Despiu-se do roupão, abandonando-o no caminho, indo em direção ao box. Admirou-se por um segundo no enorme espelho na parede oposta, frontalmente à enorme banheira de hidromassagem. Mordiscou os lábios de forma provocante e deu as costas a si mesmo no espelho e subiu os três degraus, entrando no box do banheiro. Sem fechar a porta do box, que era todo feito todo em vidro, o jovem ninfeto girou o registro do chuveiro e a água caiu forte e morna sobre seu corpo nu. Tomou o sabonete com um delicioso aroma de rosas na mão direita e começou a deslizá-lo por todo corpo: do alto do pescoço, deslizando pelo abdome magro e definido até os lados onde acariciou as nádegas. Não simplesmente se banhava, bem como excitava cada parte do seu corpo por onde o sabonete deslizava. Sua respiração era ofegante, a água caia com forte vigor em sua cabeça, fazendo seu cabelo muito negro escorrer em cascata pela testa. Segurou o sabonete com a mão esquerda enquanto enfiava os dedos indicador, médio e anelar da mão direita na boca, desejando imensamente estar sugando o membro teso e viril de seu amado. Passou o sabonete entre suas perna, na região anal, enquanto sugava seus próprios dedos. A música ecoando forte nas paredes do banheiro. Desejava que seu amante estivesse com ele naquele momento. Não tardou e seu desejo foi atendido. Seu amado acabara de adentrar o box, contemplando seu corpo jovem, nu e molhado, sedento de luxúria e prazer... O jovem mordeu o dedo indicador sedutoramente, olhando nos olhos daquele que era o teu tutor, seu amor, seu rei, sua vida. Deu um passo em direção ao seu objeto de amor estendendo a mão direita para afagar-lhe o rosto e lhe dar um beijo. Uma sensação estranha tomou seu corpo. Sua alma gelou. Um choque transpassou seu corpo e uma onda intensa de calor concentrou-se em seu abdome. O garoto contraiu-se com o golpe. O sabonete caiu de sua mão esquerda. A adaga saiu lenta e mortalmente de suas entranhas. Ele estava perplexo, gemendo de agonia. Levou as duas mãos ao ferimento. Um vermelho muito intenso pintou o chão branco de um vermelho aguado. Observou as mãos ensangüentadas enquanto sentia fluir-lhe a vida. Fitou de suas mãos ao seu amado. Para seu completo espanto não era mais aquele que amava. Observou-a descer as escadas, enquanto vacilando dava mais um passo, não agüentando sustentar-se mais em pé. Apoiou-se no vidro. Sua palma suja de sangue foi impressa no vidro; tentou sair para pedir auxílio, mas já era tarde. Tombou de borco contra a parede do box, escorregando no piso vermelho, seu abdome vertendo em vermelho grená enquanto seu genital era banhado pelo sangue da desonra, manchando a pele branca do jovem da cintura para baixo. Repousou a cabeça com força no batente da entrada do box enquanto via a outra lavar a lâmina da adaga, com um sorriso de extrema satisfação no rosto, refletido no espelho à sua frente. Suas forças se esvaiam... Sua vida se esvaia... Viu a bela e assassina mulher sorrir-lhe diabolicamente da porta do banheiro e depois disso o jovem ninfeto não viu mais nada...

domingo, 28 de agosto de 2011

Vinte e Cinco de Agosto


Vinte e Cinco de Agosto

Estava inquieto naquela manhã do vigésimo quinto dia do mês de agosto. Não pensava outra coisa senão lembrar que estariam completando o sexto mês de namoro. Infelizmente (ou não) as coisas não saíram segundo os seus sonhos e expectativas...

Levantou da cama, tomou seu banho, arrumou-se e deixou a pousada rumo ao local onde o outro fazia cursinho. Seus pensamentos o guiaram a todos os momentos em que se via pensando e planejando aquele dia, tão aguardado. Sabia que nenhum deles seria o que realmente estava para acontecer. Chegou ao local e aguardou. De todas as maneiras possíveis – e terríveis – que imaginara de como ia terminar aquele tórrido e intenso romance. E agora a realidade se mostrava ser menos sublime e ironicamente insossa e irreal. O garoto chegou. Era a primeira vez que o via pessoalmente.

- Guilherme! – chamou, após travar para se apresentar ao garoto, que estava acompanhado. Sabia quem era o outro...

Não perdeu tempo, afinal, não voou 1.614 km para não falar com o agora seu ex-namorado. Educadamente solicitou a uma garota que estava entrando para avisar ao garoto que ele estava aguardando na porta. Cristian estava apreensivo e Guilherme pareceu estar num misto de surpresa e descrença. O outro ficou observando ao longe o ex-casal se aproximarem um do outro. Os dois garotos se cumprimentaram e começaram a conversar. Havia tanta coisa que Cristian gostaria de dizer para Guilherme e tão pouco tempo para que elas fossem ditas.

Conversaram amistosamente selando de uma vez o fim do relacionamento e confirmando o início de uma amizade. O outro, Cristian já sabia quem era, se interpôs aos dois e Guilherme apresentou seu ex ao seu atual namorado. A cena foi mais uma das ironias do destino que permearam a história daqueles dois. Cristian teve que segurar o riso e optar pela a descrição. O garoto não precisava utilizar seus conhecimentos em Psicologia para saber que o namorado do seu ex estava se sentindo claramente ameaçado com a sua presença, pois não tirava o olho dos dois enquanto Cristian conversava com Guilherme.

O tempo passou rápido e ambos sabiam que era o fim. Cristian gostaria de ter conhecido a melhor amiga de Guilherme, mas sabia que não seria possível. Após conversarem sobre os dois, sobre um e sobre o outro os dois garotos se abraçaram... Não foi o abraço tão sonhado e tão desejado por Cristian, mas ainda assim foi um abraço. Um bom abraço; que ficaria marcado para sempre na lembrança dos dois... Do que fez o possível e o impossível em nome de um grande amor e daquele que, embora tenha cometido alguns erros, conseguiu aprender algo com esta relação.

Não foi um final feliz... Mas quem disse que os finais que não são felizes são necessariamente ruins ou infelizes. Enfim, foi apenas um final... Um final para um novo começo!